Archive

Archive for September, 2009

a aventura do cotidiano..

September 30th, 2009

O errante pode ser solitário, mas não é isolado e isto porque participa, realmente, imaginaria ou virtualmente, de uma comunidade vasta e informal que, não tendo obrigatoriamente duração longa, nem por isto é menos sólida, pelo fato de ultrapassar os indivíduos particulares e unir a essência de um ser conjunto fundado sobre os mitos, os arquétipos.

A liberdade de tom e de postura segregada pelo ambiente libertário do momento não é de modo algum índice de uma ideologia individualista ou de qualquer narcisismo efêmero. É, na verdade, importante estar atento ao fato de que aquilo que está em questão aqui é menos um “eu” empírico, o do ego da tradição ocidental em geral e do cartesianismo em particular, e mais certamente, por contágio, aquilo que o budismo chama de o “eu original”. Os diversos sincretismos religiosos ou filosóficos testemunham isso, as práticas da New Age o mostram à vontade, as pesquisas espirituais-corporais disso dão fé, estamos certamente diante de uma orientalização do mundo. Eis o fruto do nomadismo contemporâneo: ele pediu emprestado a diversas civilizações elementos que o racionalismo triunfante tinha ou ocultado ou marginalizado, e disso faz o centro da sociabilidade contemporânea.

Assim a liberdade do errante não é a do indivíduo, ecônomo de si e ecônomo do mundo, mas exatamente a da pessoa que busca um modo místico “a experiência do ser“. Essa experiência, e é por isso que se pode falar de mística, é antes de tudo comunitária. Precisa, sempre, da ajuda do outro. O outro pode ser aquele da pequena tribo à qual se aderiu, ou o grande Outro da natureza, ou de tal ou qual divindade. O dinamismo e a espontaneidade do nomadismo estão justamente em desprezar fronteiras (nacionais, civilizacionais, ideológicas, regiliosas) e viver concretamente alguma coisa de universal.

Citas do livro Sobre o nomadismo – vagabundagens pós-modernas. (Michel Maffesoli – Ed. Record)

Fabiano Principal

a fronteira é adiada e a aventura segue

September 30th, 2009

O desejo da errância como “sede do infinito”

September 29th, 2009

Os sonhos mais poderosos são os impessoais. O de “escapar por pouco” é um deles, que invoca o surrealismo do real, quer dizer, essa estranha capacidade de inventar um presente eterno.
..
O nomadismo é totalmente antiético com relação à forma de Estado moderna. Este preocupa constantemente em suprimir o que considera a sobrevivência de um modo de vida arcaico. Fixar significa a possibilidade de dominar. Isso já é uma boa ilustração da “fantasia de uno”, que é a característica da violência totalitária moderna.
..
A imobilização de uma função profissional, ideológica, afetiva —, longe de ser a marca de uma superioridade, de um progresso social ou individual, pode ser o sintoma de um fechamento, e portanto em um certo prazo, tem um efeito mortífero.

..
O ideal do poder é a imobilidade absoluta, da qual a morte é, com toda a segurança, o exemplo acabado.

..
pouco importa, de resto, os que representam seus vetores: hippies, vagabundos, poetas, jovens sem ponto de referencia, ou mesmo turistas surpreendidos nos circuitos de férias programados. O certo é que a “circulação” recomeça.
Que não haja equívoco, isso de modo algum é consciente ..
O “não-pertencimento a um lugar” é a própria condição de uma possível realização de si na plenitude de todo.
..
A errância, seria a expressão de uma outra relação com o outro e com o mundo, menos ofensiva, mais carinhosa, um tanto lúdica, e seguramente trágica, repousando sobre a intuição da impermanência das coisas, dos seres e de seus relacionamentos..

Citas (panfletárias como gosto) do livro Sobre o nomadismo – vagabundagens pós-modernas. (Michel Maffesoli – Ed. Record)

Fabiano Principal