O prezado leitor talvez não o tenha reparado. Que o mundo está mudando profundamente, é óbvio. Mas em quê? Segundo a revista The Economist, estamos voltando a ser nômades.
A chave, aqui, é mobilidade. A maior característica de nossas novas traquitanas eletrônicas é sua portabilidade. Câmeras, iPods, celulares, notebooks, palms. Parte do que faz os novos aparelhos mais portáteis é a crescente miniaturização dos componentes. De nada valeria se a rede não estivesse indo para o ar, sem a necessidade de fios. É um mundo wireless.
Há um motivo que faz nossos locais de trabalho serem como são. Há uma mesa, arquivos, estantes, tomadas várias. Como um mínimo de privacidade traz o silêncio necessário para um tanto de concentração, alguém inventou os cubículos, imortalizados por Scott Adams em sua série de tiras com o personagem Dilbert. Para sermos localizados, é também preciso que estejamos à frente do número telefônico que nos cabe. A revolução industrial nos criou um mundo dividido em cubos nos quais vamos nos ajeitando enquanto produzimos como loucos, enquanto produzimos em série. O tempo do lazer, por sua vez, era aquele em que passávamos fora do escritório. Tudo devidamente compartimentado.
Esses motivos todos, no entanto, estão desaparecendo – e muito rápido. Aquele mundo tão concreto de 1990 em que não havia celulares, computadores portáteis eram coisa de executivos endinheirados e internet só uma meia dúzia de geeks conhecia se foi. A era industrial já acabou. O que falta é definir como funciona o tempo corrente.
O arquivo de dados e o conteúdo dos livros que precisamos consultar está na rede – pode ser uma rede local ou aquela outra, global. Ainda precisamos de tomadas, mas isso não é sempre. Nossas baterias agüentam o tranco por um bom tempo. Nosso número telefônico, evidentemente, está conosco não importa onde estejamos. E uma das características dessas nossas novas ferramentas é que elas servem ao trabalho e ao lazer. O telefone toca música e tira fotos. O computador serve para jogos ou para uma conversa em vídeo com aquela tia que mora em Santa Rita, muito longe – enquanto serve para a planilha, para o relatório.
Fundamentalmente, podemos trabalhar em qualquer lugar. No inverno do Hemisfério Norte, é bom que seja entre quatro paredes. Em dias de chuva, também. Mas num dia agradável de verão, desde que protegidos por uma sombra generosa, nada melhor do que trabalhar ao ar livre. Podemos trabalhar enquanto tomamos um café. E, se às vezes empacamos numa questão, é bom dar um tempo, conversar com um amigo, jogar um jogo ou algo assim, até que o estalo nos venha e possamos retomar o trabalho.
A Economist cita dois ambientes de trabalho cujas arquiteturas prevêem esse novo trabalhador. Um é o Centro Stata do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), desenhado pelo mestre Frank Gehry. Sua fachada têm ângulos inusitados, foge aos cubos. E, lá dentro, todos os ambientes onde convivem professores e estudantes de filosofia e ciência da computação podem ser um lugar de paquera, de estudo, de aula ou a cafeteria. Não há salas com uso específico e todo corredor é um pouco sala também. Os ambientes servem ao propósito que os usuários desejarem no momento.
O outro lugar é o câmpus do Google. Nesse mundo, a empresa não tem conjunto de prédios. Tem câmpus. Além dos ambientes internos à moda do MIT, também há um jardim e quadras de esporte. A rede Wi-Fi é plena até nos ônibus que levam os funcionários das cidades vizinhas à sede.
Até no ônibus o trabalho é possível, pois é. E, no entanto, a vida em família é também constante. A conversa com sua mulher a respeito da escola da filha vai sendo tocada ao longo do dia. O tempo do trabalho, do lazer, dos amigos e da família é o tempo todo. O lugar é também qualquer lugar nessa era em que tornamos a ser nômades.
clipping do Estadão
segunda-feira, 5 de maio de 2008
porPedro Doria
*pedro.doria@grupoestado.com.br
Fabiano Principal nomade