Em As Guerras Pérsicas, Heródoto descreve um povo temido conhecido como os citas, que tinham uma sociedade agrícola-nômade diferente dos impérios sedentários do “berço da civilização”. A terra natal dos citas ao norte do Mar Negro era inóspita tanto climática quanto geograficamente, e resistiu à colonização nem tanto por estas razões naturais, mas principalmente pela inexistência de instrumentos econômicos ou militares por meio dos quais se pudesse colonizá-los ou subjulgá-los. Sem cidades ou territórios fixos, aquela “horda migratória” nunca podia na verdade ser localizada. Consequentemente, nunca podiam ser postos na defensiva e conquistados. Mantinham sua autonomia por meio do movimento, fazendo parecer aos estrangeiros que estavam sempre presentes e a postos para enfrentarem um ataque, mesmo quando ausentes.
O medo inspirado pelos citas era justificado, uma vez que organizavam frequentes ofensivas militares, embora ninguém soubesse exatamente onde, até o momento em que repentinamente apareciam, ou até que indícios de seu poder fossem descobertos. Uma fronteira flutuante era mantida em sua terra natal, mas para eles o poder não era uma questão de ocupação espacial. Eles vagavam, tomando territórios e cobrando tributos na medida em que precisavam, em qualquer região onde se encontrassem. Desse modo, construíram um império invisível que dominou a “Ásia” por vinte e sete anos e que se estendeu até o Egito, ao sul. O império em si não era sustentável, já que sua natureza nômade rejeitava a necessidade ou o valor da posse dos territórios. (Não deixavam guarnições em territórios conquistados).
Os citas ficavam vagando livres, já que seus adversários rapidamente compreenderam que, mesmo quando a vitória parecia provável, por uma questão de praticidade era melhor não combatê-los, mas sim concentrar esforços militares e econômicos em outras sociedades sedentárias - isto é, sociedades onde a infra-estrutura podia ser localizada e destruída. para combater os citas, o inimigo era obrigado a primeiro revelar-lhes a sua posição defensiva. Se os citas não gostassem das condições de combate, sempre tinham a opção de permanecerem invisíveis, impedindo o inimigo de construir um teatro de operações.
Este modelo arcaico de distribuição do poder e estratégia predatória foi reinventado pela elite do poder do capitalismo tardio, com praticamente os mesmos objetivos. Sua reinvenção baseia-se na abertura tecnológica do ciberspaço, onde velocidade/ausência e inércia/presença colidem na hiper-realidade. O modelo arcaico de poder nômade, outrora um meio para formar um império instável, evoluiu para um meio sustentável de dominação. Em um estado de duplo sentido, a sociedade contemporânea de nômades se torna tanto um campo difuso de poder ser localização quanto uma máquina de ver que aparece como espetáculo. A primeira prerrogativa abre caminho ao aparecimento de economia global, enquanto a segunda age como uma guarnição militar em vários territórios, mantendo a ordem da mercadoria cm uma ideologia específica a cada área.
Embora tanto o campo de poder difuso quanto a mquina de ver estejam integrados através da tecnologia, e sejam peças indispensáveis ao império global, foi o campo de poder difuso o que realizou plenamente o mito cita. A passagem de um espaço arcaico para uma rede eletrônica acrescenta um complemento às vantagens do poder nômade: os nômades militarizados sempre estão na ofensiva. A obscenidade do espetáculo e o terror da velocidade são seus companheiros fiéis.
Na maioria dos casos, populações sedentárias se submetem à obscenidade do espetáculo, e alegremente pagam o tributo que lhes é exigido sob a forma de trabalho, bens materiais e lucro. Primeiro Mundo, Terceiro Mundo, nação ou tribo, todos devem pagar tributo. As nações, classes, raças e gẽneros diferenciados e hierárquicos da sociedade sedentária moderna, todos se fundem sob o domínio nômade e passam a ter o papel de prestadores de serviço - zeladores da ciberelite. Esta divisão, mediada pelo espetáculo, oferece táticas que ultrapassam o modelo nômade arcaico. Em vez de uma pilhagem hostil de um adversário, tem lugar uma pilhagem amigável, conduzida de modo sedutor contra o passivo em êxtase. A hostilidade do oprmimido é recanalizada para a burocracia, que desvia o antagonismo para longe do campo de poder nômade.
O refúgio na invisibilidade da não-localização impede que aqueles que foram pegos nos enquadramentos espaciais do panóptico (idealizado pelo inglês Jeremy Benthan no fim do século XVIII, o panóptico era um modelo de prisão cuja arquitetura permitia que os guardas vigiassem os detentos sem serem vistos. Com o tempo, passou a designar qualquer estrutura de controle onde o poder não pode ser identificado) definam o local de resistência *um teatro de operações), ficando pelo contrário, presos por uma fita adesiva aos monumentos do capital morto. (Direito ao aborto? Faça uma manifestação nas escadas da Suprema Corte. Para a liberação de drogas que retardam o desenvolvimento do HIV, invada o NIH (National Institute of Health). A maior vantagem dos nômades reside em não terem mais necessidade de manter uma posição defensiva.
Enquanto os centros de informação eletrônica transbordam com arquivos de pessoas eletrônicas (aquelas transformadas em históricos bancários, tipos de consumidores, padrões e tendências etc), pesquisa eletrônica, dinheiro eletrônico e outras formas de poder de informação, o nômade está livre para vagar pela rede eletrônica e cruzar as fronteiras nacionais com um mínimo de resistência por parte das burocracias nacionais. O domínio privilegiado do espaço eletrônico ccontrola a logística física da produção industrial, visto que a liberação de matérias-primas e de bens manufaturados requer autorização e orientações eleltrônicas. Tal poder deve ser entregue ao ciberdomínio, sob pena da eficiência (e portanto lucratividade) da produção industrial complexa, da distribuição e do consumo entrarem em colapso devido a uma falha na comunicação.
O mesmo vale para as forças armadas: existe um controle das informações e recursos e distribuição pela ciberelite. Sem comando e controle, as forças militares ficam imobilizadas ou, na melhor das hipóteses, ficam limitadas a uma distribuição caótica em um espaço localizado. Dessa maneira, todas as estruturas sedentárias se tornam servas dos nômades.
trecho do livro Distúrbio Eletrônico - Critical Art Ensemble (que troquei na festa do chapéu)
Fabiano Principal copy&paste, nomade