Archive

Archive for May, 2010

carta ao arquiteto

May 30th, 2010

seminude_reclining1
Nosso mal entendido é de carater conceitual. O senhor fez esse bonito desenho de minha casa e de minha biblioteca partindo da suposição – muito corriqueira, infelizmente – de que num lar o importante são as pessoas em vez de os objetos. Não o critico por ter adotado esse critério, indispensável a um homem de sua profissão que não se resigne em prescindir de clientes. Mas a concepção que tenho de meu futuro lar é oposta. A saber: nesse pequeno espaço construído a que chamarei meu mundo e que meus caprichos governarão, prioridade absoluta terão meus livros, quadros e gravuras; as pessoas serão cidadãos de segunda classe. São esses mil volumes e a centena de telas e cartolinas estampadas que devem constituir a razão primordial do projeto que lhe encomendei. O senhor subordinará a comodidade, a segurança e o espaço dos humanos aos dos objetos.

É impressindível o detalhe da lareira, que deve poder se transformar em forno crematório de livros e de gravuras que estão sobrando, segundo minha vontade. Por isso, deverá estar localizada muito perto das estantes e ao alcance de minha cadeira, pois me agrada brincar de inquisidor de calamidades literárias e artísticas, sentado, não de pé.

Explico-me. Os quatro mil volumes e as cem gravuras que possuo são números inflexíveis. Nunca terei mais, para evitar a super-abundância e a desordem, mas nunca serão os mesmos, pois irão se renovando sem parar, até minha morte. O que significa que, para cada livro que acrescento à minha biblioteca, elimino outro, e cada imagem – litografia, talha, xilografia, desenho, ponta-seca, mixografia, óleo, aquarela, etcétera – que se incorpora à minha coleção afasta das demais a menos favorecida. Não escondo que eleger a vítima é árduo e por vezes dilacerante, um dilema hamletiano que me aflige dias, semanas, e que depois meus pesadelos reconstroem. No início, eu presenteava bibliotecas e museus públicos com os livros e gravuras sacrificados. Agora, queimo-os, daí a importancia da lareira. Optei por esta fórumula drástica, que salpica no desassossego de ter de escolher uma vítima a pimenta de estar cometendo um sacrilégio cultural, uma transgressão ética, no dia, melhor dizendo na noite em que, ao resolver substituir um bonito Szyslo inspirado no mar de Paracas uma reprodução da multicolorida lata de sopa Campbell’s de Andy Wahrol, compreendi que era uma estupidez infligir a outros olhos uma obra que eu afinal considerara indigna dos meus. Então, joguei-a no fogo. Vendo aquele papelão se crestar, senti um vago remorso, reconheço. Agora isso já não me acontece. Atirei dezenas de poetas românticos e indigenistas às chamas e um número igualmente grande de artistas plásticos conceituais, abstratos, informalistas, paisagistas, retratistas e sacros, para ca, sem dor, e melhor ainda, com a estimulante sensação de estar exercendo a crítica literária e de arte como deveria faze-lo: de modo radical, irreversível e combustível. Acrescento, para concluir esse aparte, que o passatempo me diverte, mas não funciona nem um pouco como afrodisíaco, e por isso, considere-o limitado e menor, meramente espiritual, sem reverberações sobre o corpo.

Confio em que o senhor não considere o que acaba de ler – a proponderancia que atribui a quadros e livros em relação a bípedes de carne e osso – um acesso de humor ou uma pose de cínico. Não é isso, e sim uma convicção arraigada, conseqüência de difíceis, mas também prazerosas experiências. Não foi fácil para mim adotar uma atitude que contradizia velhas tradições – chamemo-las de humanísticas com um sorrizo nos lábios – de filosofias e religiões antropocêntricas, para as quais é inconcebível que o ser humano real, estrutura de carne e ossos parecíveis, seja considerado menos digno de interesse e de respeito do que o inventado, do que aquilo que aparece (digamos, refletido, caso se sinta mais cômodo assim) nas imagens da arte e da literatura. Poupo-lhe os detalhes dessa história e o transporto para a conclusão a que cheguei e que agora proclamo sem rubor. Não é o mundo de velhacos semoventes do qual o senhor e eu fazemos parte o que me interessa, o que me faz ter prazer e sofrer, mas sim essa miríade de seres animados pela imaginação, pelos desejos e pela habilidade artística, presentes nestes quadros, livros e gravuras que com paciência e amor de muitos anos, consegui reunir. A casa que vou construir em Barranco, a qual o senhor deverá desenhar refazendo o projeto do principio ao fim, é para eles, antes de ser para mim ou para minha flamejante nova esposa, ou para meu filhinho. A trindade formada por minha família, digo sem blasfêmia, está a serviço desses objetos e o senhor também deverá estar, quando, após ter lido estas linhas, se inclinar sobre a prancheta para retificar o que fez errado.

O que acabo de escrever é uma verdade literal, não uma enigmática metáfora. Construo esta casa para padecer e divertir-me com eles, por eles. Faça um esforço e me imite durante o limitado período em que trabalhará para mim.

Agora, desenhe.

trecho do livro “os cadernos de don rigoberto” mario vargas lhosa..
Ilustração: egon schiele
recuperado do MandiocaModerna

Fabiano Principal

desapego

May 29th, 2010

captura-de-tela-2010-05-29-as-235024
As vezes eu acho que o difícil não é chegar lá, o difícil é chegar inteiro com toda essa carga de pequenas bobagens que tantos nos atrasam.
Esses dias cheguei a fazer a lista das principais bobagens que há anos carrego e tanto me atrasam:

3 carrinhos de madeira
um time de botão completo
um Vinicius de Moraes completo
uma pipa meio rasgada
dois amigos afogados
um bilhete da Lurdinha
o cachorro amarelo que o ônibus pegou
meu primeiro boletim
pedras de um rio que nem existe mais
um catecismo, um estilingue, uma tropa de gado de osso, muito popular, aliás, entre os meninos da minha terra.

As vezes, quero sinceramente juntar tudo e andar mais depressa. Mas é uma luta. Um dia é a roda do carrinho que se vai, outro é o gado que inventa de pastar lá fora, outro não tem vento para a pipa, ou então é um dos afogados que me acena, o blihete que briga com o catecismo…Carlos Moraes em “Como ser feliz sem dar certo” (Editora Record)

visto aqui
seguindo @lustein
foto não autorizada, mas copiada daqui

Fabiano Principal ,

Encontros com homens notáveis

May 19th, 2010

Gurdjieff

Fabiano Principal

Tudo é material

May 19th, 2010

gurdjieffTudo no mundo é material e – de conformidade com a lei universal – tudo está em movimento e em contínua transformação. Essa transformação vai da matéria mais sutil à matéria mais grosseira e vice-versa. Entre esses dois extremos, há numerosos graus de densidade de matéria.

Essa transformação da matéria não se efetua de maneira igual e contínua. Em certos estágios desse desenvolvimento, produzem-se paradas, que correspondem, de certo modo, a tudo que pode ser chamado de organismos, no sentido amplo dessa palavra – O Sol, a Terra, o homem, o micróbio. As estações são transformadoras; elas transformam a matéria tanto no movimento ascendente, em que esta se torna mais fina, quanto no movimento descendente, em que se torna mais densa. Essa transformação se opera de maneira puramente mecânica.

A matéria é a mesma em toda parte, mas em cada nível sua densidade é diferente. Em consequencia, cada matéria tem um lugar próprio na escala geral das matérias e é possível dizer se ela está em vias de se tornar mais fina ou mais densa.

Os transformadores diferem apenas pela sua escala. O homem é uma estação de transmissão tanto quanto, por exemplo, a Terra ou o Sol; ele é a sede dos mesmos processos mecânicos. Opera-se nele a mesma transformação de formas superiores da matéria em formas inferiores, e de formas inferiores em formas superiores.

Seguindo duas direções – a evolução e a involução -, essa transformação de substâncias não se opera apenas ao longo da linha principal, que vai do mais sutil ao mais grosseiro e vice-versa, mas, dessa linha a cada estação intermediária, se desenvolvem ramos laterais a cada nível. A matéria necessária pode então ser captada e absorvida por uma dada entidade e serve assim à sua evolução ou involução. Qualquer coisa absorve, quer dizer, se nutre de algo e serve, por sua vez, de alimento. É isso o que significa “troca recíproca”. Essa troca recíproca se efetua em tudo, tanto na matéria orgânica como na matéria inorgânica.

Como eu disse, tudo é movimento.

Nenhum movimento segue uma linha reta; cada movimento encerra duas direções simultâneas; está em rotação sobre si mesmo e cai na direção do centro de gravidade mais próximo, de conformidade com a lei de queda. É o que se chama habitualmente o movimento. Essa lei universal era conhecida em tempos muito antigos. Podemos deduzi-la de certos acontecimentos do passado que jamais teriam ocorrido, se os homens de então não tivessem possuído esse conhecimento. Outrora, os homens sabiam como utilizar e controlar essas leis da Natureza. Essa direção artificial das leis mecânicas pelo homem é magia e implica não apenas uma tranformação de substâncias na direção desejada, mas também a resistência, a oposição a certas influências mecânicas que repousam sobre as mesmas leis.

Os que conhecem essas leis universais e sabem como se servir delas são magos. Há uma magia branca e uma magia negra. Os magos brancos se servem de seus conhecimentos para o bem; os magos negros se servem deles para o mal, para seus próprios fins egoístas.

Da mesma forma que o Grande Conhecimento, a magia que existe desde os tempos mais antigos nunca se perdeu, e o saber que contém permaneceu o mesmo. Somente a forma sob a qual esse saber se exprimia e se transmitia mudou, de acordo com o lugar e a época.

Falemos agora numa linguagem que, daqui a duzentos anos, não será mais a mesma; há duzentos anos, ela era diferente. Do mesmo modo, a forma na qual o Grande Conhecimento foi expresso num dado momento se torna dificilmente compreensível às gerações seguintes; ela é tomada quase exclusivamente de maneira literal. Para a maioria das pessoas o conteúdo interior se perdeu.

Na história da humanidade, desenvolam-se paralelamente duas linhas de civilização independentes uma da outra; a linha esotérica e a linha exotérica. Invariavelmente, uma suplanta a outra e se desenvolve enquanto a outra fenece. Um período de civilização em que predomina o esotérico surge, quando as condições exteriores, políticas e outras, são favoráveis. Foi assim para o cristianismo. O Conhecimento, ao assumir a forma de um ensinamento correspondente às condições de tempo e de lugar, encontra então largamente difundido. Mas, enquanto para alguns a religião serve como guia, para outros é apenas um policial.

O próprio Cristo era também um mago, um homem de Conhecimento. Não era Deus, ou melhor, era Deus sim, mas num certo nível.

O verdadeiro sentido e o alcance real de muitos fatos do Evangelho estão quase esquecidos hoje. Por exemplo, a Ceia foi um acontecimento inteiramente diferente do que geralmente se imagina. Foi realmente seu sangue que Cristo misturou com o pão e o vinho e deu a seus discípulos.

Para fazê-los compreender isso, devo falar a vocês de outra coisa.
Tudo que vive está cercado de uma certa atmosfera. Só a dimensão difere. Quanto maior for o organismo, maior será essa atmosfera. Nesse sentido, cada organismo pode ser comparado a uma fábrica. Uma fábrica possui em volta dela uma atmosfera composta por fumaça, vapor, detritos e de certos compostos que se evaporam durante o processo de produção. A qualidade desses diversos constituintes varia. Exatamente da mesma maneira, a atmosfera com um cheiro particular. Ocorre o mesmo com a atmosfera de cada ser humano. Para narinas muito sensíveis, as de um cão por exemplo, é impossível confundir a atmosfera de um homem com a de outro.

Eu disse que um homem era também uma estação para a transformação de substâncias. Uma parte das substâncias produzidas pelo organismo serve à transformação de outras substâncias, enquanto o restante se espalha na atmosfera, isto é, se perde.

Desse modo, o organismo não trabalha unicamente para si mesmo, mas também para algo diferente. O homem que tem o Conhecimento sabe como reter em si essas matérias finas e acumulá-las. Só um grande acúmulo dessas matérias finas torna possível a formação, no homem, de um segundo corpo, mais leve.
Comumente, as matérias que compõem a atmosfera são continuamente esgotadas e constituídas pelo trabalho interno do homem.

A atmosfera do homem não tem necessariamente a forma de uma esfera. Ela muda constantemente de forma. No momento de uma tensão, de um medo ou de um perigo, ela se estira na direção da tensão e imediatamente o lado oposto se torna menor.

A atmosfera do homem ocupa um determinado espaço. No limite desse espaço, ela sofre a atração do organismo. Mas passado certo limite, as partículas da atmosfera são arrancadas e não voltam mais. Isso pode acontecer todas as vezes que a atmosfera se estira muito numa direção.

Da mesma forma, quando um homem se move, partículas de sua atmosfera são arrancadas e ficam para trás, o que produz uma “trilha”, graças a qual esse homem pode ser seguido pelo rastro. Essas partículas podem se dissolver rapidamente no ar, mas também permanecer no lugar tempo bastante longo. Algumas partículas de sua atmosfera podem igualmente se fixar nas suas roupas, suas roupas de baixo e outros objetos pertencentes a ele, de tal modo que uma ligação se estabelece entre eles e esse homem.

Magnetismo, hipnotismo e telepatia são fenômenos da mesma ordem. A ação do magnetismo é direta; a do hipnotismo opera à curta distância através da atmosfera, a da telepatia, à distância maior; poder-se-ia compará-la à do telefone ou do telégrafo. Para estes as ligações se fazem por fios metálicos; para a telepatia, elas são feitas por um rastro de partículas deixadas pelo homem. Quem tem o dom de telepatia pode preencher esse rastro com sua própria matéria. Estabelece, desse modo, uma ligação, formando, de certo modo, um cabo pelo qual pode agir sobre o material do outro. Se ele tiver um objeto pertencente a alguém, poderá, depois de ter estabelecido tal conexão, modelar em volta desse objeto uma imagem de cera ou de argila, e, agindo sobre ela, agir assim sobre o próprio homem.

Gurdjieff, G. L. Gurdjieff fala a seus alunos, Pensamento

Fabiano Principal

entre el Aqui y el Ahora

May 15th, 2010

¡Si nuestra amistad depende de cosas como el espacio y el tiempo, entonces, cuando por fin superemos el espacio y el tiempo, habremos destruido nuestra propia hermandad! Pero supera el espacio, y nos
quedará sólo un Aqui. Supera el tiempo, y nos quedará sólo un Ahora. Y entre el Aqui y el Ahora, ¿no crees que podremos volver a vernos un par de veces?

Juan Salvador Gaviota
via @lowfill

Fabiano Principal

história para encenar

May 12th, 2010

se tiverem uma historia para encenar que as deixe de acordo com o mundo, viverão de acordo com o mundo. Mas se tiverem uma história para encenar que as deixe em desacordo com o mundo, como é o seu caso, viverão em desacordo com o mundo. Se tiverem uma história para encenar em que sejam os senhores do mundo, irão agir como os senhores do mundo. Se tiverem uma história para encenar em que o mundo seja o inimigo a ser conquistado, irão conquistá-lo como a um inimigo. Inevitavelmente, um dia o inimigo estará sangrando até a morte a seus pés, como o mundo está agora.

lendo via @tipuri Ismael, um romance da condição humana. Daniel Quinn

Fabiano Principal