a aventura do cotidiano..
O errante pode ser solitário, mas não é isolado e isto porque participa, realmente, imaginaria ou virtualmente, de uma comunidade vasta e informal que, não tendo obrigatoriamente duração longa, nem por isto é menos sólida, pelo fato de ultrapassar os indivíduos particulares e unir a essência de um ser conjunto fundado sobre os mitos, os arquétipos.
A liberdade de tom e de postura segregada pelo ambiente libertário do momento não é de modo algum índice de uma ideologia individualista ou de qualquer narcisismo efêmero. É, na verdade, importante estar atento ao fato de que aquilo que está em questão aqui é menos um “eu” empírico, o do ego da tradição ocidental em geral e do cartesianismo em particular, e mais certamente, por contágio, aquilo que o budismo chama de o “eu original”. Os diversos sincretismos religiosos ou filosóficos testemunham isso, as práticas da New Age o mostram à vontade, as pesquisas espirituais-corporais disso dão fé, estamos certamente diante de uma orientalização do mundo. Eis o fruto do nomadismo contemporâneo: ele pediu emprestado a diversas civilizações elementos que o racionalismo triunfante tinha ou ocultado ou marginalizado, e disso faz o centro da sociabilidade contemporânea.
Assim a liberdade do errante não é a do indivíduo, ecônomo de si e ecônomo do mundo, mas exatamente a da pessoa que busca um modo místico “a experiência do ser“. Essa experiência, e é por isso que se pode falar de mística, é antes de tudo comunitária. Precisa, sempre, da ajuda do outro. O outro pode ser aquele da pequena tribo à qual se aderiu, ou o grande Outro da natureza, ou de tal ou qual divindade. O dinamismo e a espontaneidade do nomadismo estão justamente em desprezar fronteiras (nacionais, civilizacionais, ideológicas, regiliosas) e viver concretamente alguma coisa de universal.
Citas do livro Sobre o nomadismo – vagabundagens pós-modernas. (Michel Maffesoli – Ed. Record)