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Tudo é material

gurdjieffTudo no mundo é material e – de conformidade com a lei universal – tudo está em movimento e em contínua transformação. Essa transformação vai da matéria mais sutil à matéria mais grosseira e vice-versa. Entre esses dois extremos, há numerosos graus de densidade de matéria.

Essa transformação da matéria não se efetua de maneira igual e contínua. Em certos estágios desse desenvolvimento, produzem-se paradas, que correspondem, de certo modo, a tudo que pode ser chamado de organismos, no sentido amplo dessa palavra – O Sol, a Terra, o homem, o micróbio. As estações são transformadoras; elas transformam a matéria tanto no movimento ascendente, em que esta se torna mais fina, quanto no movimento descendente, em que se torna mais densa. Essa transformação se opera de maneira puramente mecânica.

A matéria é a mesma em toda parte, mas em cada nível sua densidade é diferente. Em consequencia, cada matéria tem um lugar próprio na escala geral das matérias e é possível dizer se ela está em vias de se tornar mais fina ou mais densa.

Os transformadores diferem apenas pela sua escala. O homem é uma estação de transmissão tanto quanto, por exemplo, a Terra ou o Sol; ele é a sede dos mesmos processos mecânicos. Opera-se nele a mesma transformação de formas superiores da matéria em formas inferiores, e de formas inferiores em formas superiores.

Seguindo duas direções – a evolução e a involução -, essa transformação de substâncias não se opera apenas ao longo da linha principal, que vai do mais sutil ao mais grosseiro e vice-versa, mas, dessa linha a cada estação intermediária, se desenvolvem ramos laterais a cada nível. A matéria necessária pode então ser captada e absorvida por uma dada entidade e serve assim à sua evolução ou involução. Qualquer coisa absorve, quer dizer, se nutre de algo e serve, por sua vez, de alimento. É isso o que significa “troca recíproca”. Essa troca recíproca se efetua em tudo, tanto na matéria orgânica como na matéria inorgânica.

Como eu disse, tudo é movimento.

Nenhum movimento segue uma linha reta; cada movimento encerra duas direções simultâneas; está em rotação sobre si mesmo e cai na direção do centro de gravidade mais próximo, de conformidade com a lei de queda. É o que se chama habitualmente o movimento. Essa lei universal era conhecida em tempos muito antigos. Podemos deduzi-la de certos acontecimentos do passado que jamais teriam ocorrido, se os homens de então não tivessem possuído esse conhecimento. Outrora, os homens sabiam como utilizar e controlar essas leis da Natureza. Essa direção artificial das leis mecânicas pelo homem é magia e implica não apenas uma tranformação de substâncias na direção desejada, mas também a resistência, a oposição a certas influências mecânicas que repousam sobre as mesmas leis.

Os que conhecem essas leis universais e sabem como se servir delas são magos. Há uma magia branca e uma magia negra. Os magos brancos se servem de seus conhecimentos para o bem; os magos negros se servem deles para o mal, para seus próprios fins egoístas.

Da mesma forma que o Grande Conhecimento, a magia que existe desde os tempos mais antigos nunca se perdeu, e o saber que contém permaneceu o mesmo. Somente a forma sob a qual esse saber se exprimia e se transmitia mudou, de acordo com o lugar e a época.

Falemos agora numa linguagem que, daqui a duzentos anos, não será mais a mesma; há duzentos anos, ela era diferente. Do mesmo modo, a forma na qual o Grande Conhecimento foi expresso num dado momento se torna dificilmente compreensível às gerações seguintes; ela é tomada quase exclusivamente de maneira literal. Para a maioria das pessoas o conteúdo interior se perdeu.

Na história da humanidade, desenvolam-se paralelamente duas linhas de civilização independentes uma da outra; a linha esotérica e a linha exotérica. Invariavelmente, uma suplanta a outra e se desenvolve enquanto a outra fenece. Um período de civilização em que predomina o esotérico surge, quando as condições exteriores, políticas e outras, são favoráveis. Foi assim para o cristianismo. O Conhecimento, ao assumir a forma de um ensinamento correspondente às condições de tempo e de lugar, encontra então largamente difundido. Mas, enquanto para alguns a religião serve como guia, para outros é apenas um policial.

O próprio Cristo era também um mago, um homem de Conhecimento. Não era Deus, ou melhor, era Deus sim, mas num certo nível.

O verdadeiro sentido e o alcance real de muitos fatos do Evangelho estão quase esquecidos hoje. Por exemplo, a Ceia foi um acontecimento inteiramente diferente do que geralmente se imagina. Foi realmente seu sangue que Cristo misturou com o pão e o vinho e deu a seus discípulos.

Para fazê-los compreender isso, devo falar a vocês de outra coisa.
Tudo que vive está cercado de uma certa atmosfera. Só a dimensão difere. Quanto maior for o organismo, maior será essa atmosfera. Nesse sentido, cada organismo pode ser comparado a uma fábrica. Uma fábrica possui em volta dela uma atmosfera composta por fumaça, vapor, detritos e de certos compostos que se evaporam durante o processo de produção. A qualidade desses diversos constituintes varia. Exatamente da mesma maneira, a atmosfera com um cheiro particular. Ocorre o mesmo com a atmosfera de cada ser humano. Para narinas muito sensíveis, as de um cão por exemplo, é impossível confundir a atmosfera de um homem com a de outro.

Eu disse que um homem era também uma estação para a transformação de substâncias. Uma parte das substâncias produzidas pelo organismo serve à transformação de outras substâncias, enquanto o restante se espalha na atmosfera, isto é, se perde.

Desse modo, o organismo não trabalha unicamente para si mesmo, mas também para algo diferente. O homem que tem o Conhecimento sabe como reter em si essas matérias finas e acumulá-las. Só um grande acúmulo dessas matérias finas torna possível a formação, no homem, de um segundo corpo, mais leve.
Comumente, as matérias que compõem a atmosfera são continuamente esgotadas e constituídas pelo trabalho interno do homem.

A atmosfera do homem não tem necessariamente a forma de uma esfera. Ela muda constantemente de forma. No momento de uma tensão, de um medo ou de um perigo, ela se estira na direção da tensão e imediatamente o lado oposto se torna menor.

A atmosfera do homem ocupa um determinado espaço. No limite desse espaço, ela sofre a atração do organismo. Mas passado certo limite, as partículas da atmosfera são arrancadas e não voltam mais. Isso pode acontecer todas as vezes que a atmosfera se estira muito numa direção.

Da mesma forma, quando um homem se move, partículas de sua atmosfera são arrancadas e ficam para trás, o que produz uma “trilha”, graças a qual esse homem pode ser seguido pelo rastro. Essas partículas podem se dissolver rapidamente no ar, mas também permanecer no lugar tempo bastante longo. Algumas partículas de sua atmosfera podem igualmente se fixar nas suas roupas, suas roupas de baixo e outros objetos pertencentes a ele, de tal modo que uma ligação se estabelece entre eles e esse homem.

Magnetismo, hipnotismo e telepatia são fenômenos da mesma ordem. A ação do magnetismo é direta; a do hipnotismo opera à curta distância através da atmosfera, a da telepatia, à distância maior; poder-se-ia compará-la à do telefone ou do telégrafo. Para estes as ligações se fazem por fios metálicos; para a telepatia, elas são feitas por um rastro de partículas deixadas pelo homem. Quem tem o dom de telepatia pode preencher esse rastro com sua própria matéria. Estabelece, desse modo, uma ligação, formando, de certo modo, um cabo pelo qual pode agir sobre o material do outro. Se ele tiver um objeto pertencente a alguém, poderá, depois de ter estabelecido tal conexão, modelar em volta desse objeto uma imagem de cera ou de argila, e, agindo sobre ela, agir assim sobre o próprio homem.

Gurdjieff, G. L. Gurdjieff fala a seus alunos, Pensamento

Fabiano Principal

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