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Pensamentos Polifônicos (entrevista com Massimo Canevacci)

July 13th, 2010

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“Perder-me [em São Paulo] foi em parte uma experiência dura, duríssima, mas que manifestava um enorme prazer”

Reconhecido pela ousadia em romper com métodos clássicos da história intelectual, Massimo Canevacci é um antropólogo que expõe e explica a metrópole contemporânea, a influência das mídias digitais, e ao contrário do que muito da tradição acadêmica sugere, não vê o processo cultural atual como puramente alienante. Ele capta, sim, a imensa possibilidade de interação, participação e de criação de um novo tipo de sujeito, múltiplo e ativo. Nessa entrevista, Canevacci explica sua trajetória até chegar ao método Polifônico e sua aplicação à metrópole. Assim, deixa de lado teorias generalistas e visualiza, analisa e procura compreender, cada fragmento com olhares e aproximações próprias, localizadas e efêmeras. Nesse processo, Canevacci atravessa o concreto, finda com os limites e torna a metrópole contemporânea um espaço – material e virtual - de contornos praticamente indefiníveis.

(ENTREVISTA REALIZADA PARA A PUBLICAÇÃO SEXTANTE - FABICO/UFRGS, SOB ORIENTAÇÃO DO JORNALISTA WLADYMIR UNGARETTI, EM AGOSTO DE 2007)

Para começar, uma pergunta bastante ampla: o que é a cidade?

O processo que iniciou mais ou menos nos anos 70, não é possível precisar uma data certa, no mundo ocidental, mas não só no mundo ocidental, por que também na China, etc, foi a transição da cidade industrial para o que eu chamo de metrópole comunicacional. Isto é, a cidade industrial tinha como momento central a fábrica. A fábrica era o local, não somente da produção econômica, de valor, mas também o lugar de produção política. Era o centro do conflito. Era também o contexto que desenvolveu a forma mais poderosa da lógica, isto é, a dialética. E também a formação dos partidos. Então, a fábrica dava o sentido da transformação não somente econômica, como cultural, sociológica da cidade. E naquela época dava para entender a cidade se relacionando a mesma à produção industrial. O que aconteceu? Nos últimos 30 anos mais ou menos, um processo vem ocorrendo muito lentamente, por que é um processo que ainda não acabou, de transformar esse centro, num policentrismo.

O policentrismo significa que o consumo, a comunicação e também a cultura têm agora uma importância às vezes maior do que aquela da produção. E que, em particular o consumo, que é baseado sobre esse tipo de shopping-center, mas não somente shopping-centers, também parques temáticos, desenvolve um tipo de público que não é mais o público homogêneo, massificado, da era industrial. É um público muito mais pluralizado, ou podemos dizer, públicos. Esses públicos gostam de performar o lado do consumo. Então, o consumo, o shopping-center tem uma importância que mais ou menos é igual a que tinha a fábrica no passado. Para entender esse tipo de metrópole comunicacional você tem de estudar, fazer pesquisa e também transformar esses lugares do consumo.

E a comunicação na era digital é ainda mais importante. Seja pelo aspecto produtivo, seja pelo aspecto de valores, de comportamento, pela maneira de falar, de estabelecer uma relação com o corpo, e também com a identidade. E também a cultura. Não no sentido antropológico, não como cultura intelectual, mas cultura como estilo de vida é cada vez mais parte constitutiva da nova metrópole. Então para entender essa nova metrópole é fundamental olhar o tipo de reforma, não somente urbanística, mas de prédio, de loja, e especialmente de museus, de lugares de exposições, que tem como forma arquitetônica um tipo de desenho, mas também de lógica que é pós-euclidiana. Então, se a gente olha um pouco a grande área metropolitana do mundo, esse é um desafio que é muito estagnado. Por que no Brasil, São Paulo que é uma cidade modernista, também Porto Alegre, mas São Paulo muito mais, não consegue desenvolver um tipo de arquitetura adequada à contemporaneidade. É como se a arquitetura no Brasil fosse ainda modernista, ou minimalista às vezes. E não estivesse dentro desse fluxo de desenvolver formas inovadoras, que favoreçam um tipo de percepção, de sensorialidade, e de comunicação que outras áreas metropolitanas favorecem. Então, esse tipo de transição significa que o território não é mais como antes. Que também a etnicidade, a sexualidade, a família, a identidade, são muito mais pluralizados. Tudo é muito mais possível.

É raro que uma pessoa possa fazer um tipo de trabalho por toda a vida, que fique no mesmo território, que tenha a mesma família. Então isso tudo flexibiliza muito o contexto, e isso é para mim, esse tipo de flexibilidade é parte constitutiva do conflito contemporâneo.
Então, a metrópole comunicacional é mais baseada sobre consumo e comunicação, justamente. E também o consumo, a comunicação e a cultura tem uma produção de valores, não só no sentido econômico, mas valores no sentido etnográfico, antropológico. Então a dimensão industrial ainda é significativa certamente, mas não é central como na cidade moderna. E esse cruzamento entre comunicação e tecnologia digital favorece um tipo de transformação profunda na metrópole. Na metrópole que eu chamo comunicacional, que não é mais baseada numa relação entre o Estado e a Nação. Também em parte, veramente, mas fundamentalmente são grandes áreas metropolitanas e comunicacionais que se competem, que se cruzam, e que desenvolvem um tipo de estilo, que favorece esse tipo de profunda transição.

E o conceito de Cidade continua podendo ser aplicado?

Eu acho que o conceito de cidade é baseado numa concepção de cidadania e de produção industrial, que é desafiado profundamente na nova forma, por exemplo, de consumo. O consumo contemporâneo, dos últimos 10, 20 anos, baseado não somente nos shopping-centers, mas em um tipo de dimensão mais performática, por exemplo, parques temáticos, etc, desenvolve um diferente tipo de relação entre a individualidade e o conceito de sociedade. Acho também que o conceito de sociedade não é mais forte como era antes. A sociedade era muito baseada sobre a cidade. E agora se desenvolve um tipo muito mais fluido, diferenciado, também de identidade. A cidade por exemplo, desenvolveu um tipo de identidade mais ou menos fixa; uma família, um trabalho, um território. Agora com a metrópole comunicacional, é muito mais fluida a situação, por que se tem uma multiplicidade de identidades. E isso significa também uma transformação rápida no trabalho. Novamente agora é difícil a pessoa fazer o mesmo trabalho por toda a vida e morar no mesmo território.

O que seria essa dimensão performática do consumo?

A dimensão performática é por exemplo, quando você, na nova praça digitalizada, que é, ou esse tipo de loja, ou shopping, ou cinema, ou teatro, ou Disney World, ou parques temáticos, o público não é mais um público de espectadores, isto é, que está na frente de uma obra, que olha, escuta e depois vai embora. Isso ainda continua, mas em grande parte, o que a comunicação contemporânea está favorecendo é que o público seja parte constitutiva da obra e que possa representar a sua própria história, o seu próprio conto, a sua própria imaginação. A tecnologia digital está favorecendo a criatividade, ou poderia favorecer a criatividade da pessoa, singular, e também como público, para utilizar uma palavra que talvez seja um pouco atrasada. Isso significa que o público, que era somente espectador, vem agora a ser espect-ator, isto é, uma mistura do que participa, mas que é também ator. Espect-ator significa esse tipo de co-participação que desenvolve um tipo de atitude performática no público, um espect-ator performático. Isto é, que não é mais passivo, mas é parte constitutiva da obra. Isso é muito claro na desenvolvimento da teconologia digital.

Quando você vai numa exposição de cultura digital, numa instalação, a pessoa, esteja sozinha, ou com outras pessoas, não fica parada, sentada, ou simplesmente olhando, mas participa. O corpo, no sentido também mental, é chamado a co-participar, e dessa maneira, co-produzir a obra. Isso é uma coisa muito significativa, muito importante, e fica ainda mais claro no you-tube, internet, blogs, toda a possibilidade de gravar músicas que cada menino tem, tudo isso favorece um tipo de potencialidade participativa e criativa que a pessoa agora tem, e que no passado era muito, muito menor. Era, como eu estava dizendo, na cidade industrial, o público era mais compacto, mais homogêneo, mais homologado. A potencialidade atual é favorecer um tipo de curso individual que desenvolve um tipo de conflito contra a grande sociedade. Por exemplo linux ou you tube, tem a possibilidade de desenvolver um tipo de participação performática e auto-representativa que no passado não era possível.

Como o senhor acha que os meios de comunicação modificam a percepção que as pessoas têm da cidade?

Isso é fundamental, por que a nova forma de comunicação que é em parte baseada sobre a tecnologia digital, é a coisa mais forte de transformação. Mas em parte, é também baseada nesse tipo de experiência de um consumo que não é mais o consumo tradicional. No caso, a comunicação desenvolve um tipo de sensibilidade, por exemplo, do olhar, e da experiência de relação com as outras pessoas, que não estão no mesmo espaço-tempo, mas estão em outro contexto, que é radicalmente diferente do que ocorreu ao longo da história. Por exemplo, falando de espaço-tempo, se eu estou ligado na internet eu posso ter uma comunicação simultânea com pessoas que podem morar em mais ou menos todos os lugares do mundo, e isso me dá um sentido onde o conceito, um pouco de tempo e de espaço se modifica profundamente. Ao mesmo tempo, eu posso me comunicar com pessoas dessa forma, posso olhar um jornal de New York, ou de Beijing, posso escrever e-mail, posso escrever para o orkut. Posso fazer uma multiplicidade de coisas, mais ou menos contemporaneamente, o que antes era totalmente impossível. Isso desenvolve um tipo de capacidade, um tipo de relação entre o olhar, o cérebro, o corpo, que favorece uma multiplicação perceptiva e também cognitiva. Acho que isso é a coisa mais significativa do que está acontecendo.

O que seria essa multiplicação perceptiva?

Já na modernidade, o olho é não somente uma janela que abre para o exterior, mas também um órgão que absorve na sua própria sensibilidade. Então olhar é um treino que a minha etnografia desenvolve profundamente. Treinar a olhar e se olhar, olhar-se. Por que não há nada de natural em olhar. Olhar é sempre culturalmente determinado. Então que olhar, olho seja culturalmente determinado significa que agora, no contexto atual, a coisa mais significativa, seja didaticamente seja fazendo pesquisa, é aprender, desenvolver, modificar, inventar, formas novas de olhar. Isto é, a eróptica, nas minhas palavras. Isto é, uma mistura de erotismo com óptica. Eróptica mistura uma dimensão sensual, perceptiva, sensorial, do olhar. E esse tipo de tecnologia digital, por exemplo, falando de internet, a relação entre olho, tela, mão, mouse, cérebro, corpo, é muito mais interativa do que se poderia imaginar.

Não tem uma comparação que se possa fazer com a cultura analógica, isto é, na frente do cinema eu fico espectador. Na frente da tela do computador, eu sou interativo, totalmente interativo. É favorecida a minha co-participação sensorial. Antes multi-sensorial. E o órgão que é mais ativo sobre esse tipo de procedimento é o olho. Olhar agora tem uma capacidade de absorver, compreender, uma multiplicidade de códigos em um mesmo momento. Isto é, uma tela de um computer emana, emite, uma multidão de informações simultaneamente que o olho, o olhar, esse treino de olhar, e olhar-se, tem a capacidade de absorver, entender e interagir, e às vezes modificar. Isso é característico da cultura digital. A cultura digital desenvolve uma potencialidade de olhar, olhar-eróptica simultaneamente, interativamente e às vezes, criativamente conceitualmente como nunca foi antes.

No livro, A Cidade Polifônica, o senhor comenta a necessidade d’a gente entender “os valores e modelos de comportamento que a cidade inventa”. Você poderia explicar.

A cidade para mim é como se fosse um organismo subjetivo, vital, que absorve como uma esponja o que acontece e elabora a sua própria linguagem. Esse tipo de linguagem que a cidade, especialmente a área metropolitana elabora, influencia profundamente um tipo de comportamento das pessoas que moram nessa área metropolitana. Por isso, poderia se dizer que a linguagem da metrópole é baseada sobre lugares, espaços, e principalmente sobre interstícios, isto é, interstício, um espaço que está in between, que está entre, um espaço conhecido e um desconhecido. Esses interstícios, favorecem um tipo de linguagem, que é dialogicamente interlaçado com a linguagem do corpo. E a linguagem do corpo de cada pessoa, para mim, é muito diferenciada culturalmente e comunicacionalmente, mais que sociologicamente. Isto é, é mais uma auto-percepção comunicacional que diferencia essas pessoas que uma diferenciação sociológica. Esse tipo de diferenciação, baseada sobre um tipo de linguagem do corpo e o tipo de linguagem dos interstícios, favorece uma dialógica nova, baseada muito na hibridização e em sincretismos culturais, e sobre extrema mobilidade e fluidez. Essa mobilidade, fluidez e hibridização, é parte da experiência cultural, corporal, e também urbanística, da metrópole contemporânea.

O senhor poderia explicar essa linguagem dos interstícios, e como a mesma estaria interlaçada à linguagem do corpo?

Dentro da metrópole comunicacional eu gosto muito de tentar focalizar os interstícios. Os interstícios são espaços in between, zonas in between, isto é, que estão entre lugares bem conhecidos. Interstício é uma coisa flexível, mutante, flutuante. Por exemplo, os espaços das raves eram uma coisa muito intersticial. Então eu acho que a metrópole contemporânea, a metrópole comunicacional, se desenvolve muito graças também aos interstícios. E os interstícios favorecem um tipo de dialógica entre um panorama de corpo, isto é, um body-scape. Eu utilizei a palavra location, em inglês, que é espaço-zona-interstício. Body-scape, isto é, um corpo-panorama. A dialógica da metrópole comunicacional é justamente essa interação entre interstícios flutuantes, e corpos, da mesma maneira flutuantes. Os dois favorecem um tipo de panorama que cruza, incorpora, o que antes era separado, isto é, uma location específica de um corpo, assim como um corpo de interstícios. Esse tipo de dialógica que mistura orgânico e inorgânico, corpo e coisa, ou nas minhas palavras, body-corpse, body como o corpo vivo, e corpse como o corpo morto. Então body-corpse, no hífen que separa e unifica body e corpse, acontece o trânsito, a dimensão transitiva entre corpo vivo e corpo morto que antes era claramente, rigidamente separada e que agora se mistura dessa maneira transitiva.

O que seria o multivíduo?

O conceito de indivíduo, é uma palavra de origem latina, que traduz uma palavra grega, isto é, atomon. Atomon é igual a indivíduo, isto é, indivisível. A-tomon, não divisível. Por que na cultura ocidental, o indivíduo é a última parcela social que não é mais possível dividir. Por que isso seria loucura, esquizofrenia ou morte. Então, esse tipo de concepção do indivíduo indivisível, como é atomon, é uma concepção que pertence à história da cultura ocidental, desde a Grécia, a Roma Antiga, até a modernidade. Eu acho que esse tipo de relação, o indivíduo tem uma identidade, isto é, ser igual num contexto diferente, esse é o grande desafio da cultura ocidental. A identidade ocidental é esse paradigma. Ser igual num contexto diferente. Só que, todo mundo sabe que não funciona. Nunca funcionou. Ou se funciona é num domínio auto-repressivo.

O conceito de multivíduo, para mim, é um conceito mais flexível, mais adequado à contemporaneidade. Por que significa que multivíduo é uma pessoa, um sujeito, que tem uma multidão de eus na própria subjetividade. Isto é, o plural de eu, não é mais nós, como no passado. O plural de eu, como eus. Isso pode desenvolver uma multiplicidade de identidades, de eus, que é o multivíduo, isto é, em parte, fazer uma co-habitação flutuante, múltipla, de diferentes selves, se poderia dizer por exemplo, a palavra em inglês, plural de self, que co-habitam, às vezes conflictuam, às vezes constroem, uma nova identidade, flexível e pluralizada. Acho que o multivíduo é esse tipo de possibilidade, de potencialidade. Eu espero que o multivíduo seja a potencialidade conceitual adequada à metrópole comunicacional. Em uma simetria, uma dialógica, uma interatividade entre metrópole comunicacional e subjetividade multividual.

O senhor não acha que isso pode gerar um conflito na pessoa, por que de certa forma a gente continua tendo uma vida. Como lidar com isso?

É claro. No passado essa dimensão era mais interpretada num sentido de uma esquizofrenia, esquizo significa dividir. Então esse tipo de multiplicidade era scizóide, era considerado uma loucura, uma estravagância ou era um artista, um pintor, um poeta. Agora, é claro que poderia haver sempre uma dimensão de frustração, mas experimentos de multiplicidades conflictual que co-habitam o mesmo eus, eu gosto de utilizar o artigo no singular, e o pronome no plural, isto é, o eus. O eus significa que ele tem esse tipo de potencialidade de desenvolver esse tipo de pluralidade co-habitativa, conflitual, mas potencialmente não-patológica. Também a distinção entre norma e desviança, o que é normal e o que é anormal, pertence a um tipo de história da psicopatologia. E muito freqüentemente a psicopatologia do passado definia a pessoa como louca por que era muito poética, muito estranha, não dava para aceitar esse tipo de multiplicidade. Agora eu acho que esse mundo da tecnologia digital favorece esse tipo de comportamento, e eu espero sempre que seja mais assim.

Nós falamos sobre a comunicação via internet, comunicação digital, mas o Brasil é um lugar onde grande parte das pessoas ainda se comunica de pessoa para pessoa. Como o senhor vê isso?

Acho que isso é parte verdade e parte não é verdade. Por que as estatísticas afirmam que o orkut, somente no Brasil, tem uma distribuição enorme. Então claramente o Brasil, como você sabe muito bem, é um país muito plural, não dá para dar uma identidade ao Brasil. Isso acontece também em outros países, na Itália, nos Estados Unidos, etc. No Brasil, é ainda mais forte essa distinção baseada sobre a utilização da tecnologia. Por isso você justamente está dizendo que, o que se chama digital divide, isto é, uma parte da população no Brasil, não somente no Brasil, mas no Brasil, está ainda fora dessa comunicação digital.

Eu acho que uma política comunicacional no Brasil, deveria favorecer sempre mais esse tipo de desafio do digital divide, isto é, dessas pessoas que são excluídas, por essa divisão. Pessoas que ainda estão sob influência fortíssima da televisão generalista, que no Brasil ainda é muito, muito forte a televisão generalista. Mas ao mesmo tempo também, no Brasil, há um novo tipo de televisão, televisões podemos dizer, que estão se desenvolvendo. Então, para responder a sua pergunta, há uma presença forte, fortíssima, de pessoas que no Brasil utilizam a internet de forma globalizada e localizada ao mesmo tempo. Esse outro segmento do digital divide, eu acho que uma política comunicacional, isto é, não mais tanto uma política social, mas uma política comunicacional, deveria enfrentar. Principalmente, na escola pública. A escola pública deveria ser totalmente digitalizada, com financiamento não somente público, mas também privado. E esse eu acho que é o desafio do Brasil contemporâneo. Muitos dos desafios do Brasil contemporâneo se poderia resolver enfrentando um novo tipo de formação didática sobre a comunicação digital.

Entrevista realizada em 11/04/2008 publicada no Overmundo

dica da @viviamaral

Fabiano Principal

desapego

May 29th, 2010

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As vezes eu acho que o difícil não é chegar lá, o difícil é chegar inteiro com toda essa carga de pequenas bobagens que tantos nos atrasam.
Esses dias cheguei a fazer a lista das principais bobagens que há anos carrego e tanto me atrasam:

3 carrinhos de madeira
um time de botão completo
um Vinicius de Moraes completo
uma pipa meio rasgada
dois amigos afogados
um bilhete da Lurdinha
o cachorro amarelo que o ônibus pegou
meu primeiro boletim
pedras de um rio que nem existe mais
um catecismo, um estilingue, uma tropa de gado de osso, muito popular, aliás, entre os meninos da minha terra.

As vezes, quero sinceramente juntar tudo e andar mais depressa. Mas é uma luta. Um dia é a roda do carrinho que se vai, outro é o gado que inventa de pastar lá fora, outro não tem vento para a pipa, ou então é um dos afogados que me acena, o blihete que briga com o catecismo…Carlos Moraes em “Como ser feliz sem dar certo” (Editora Record)

visto aqui
seguindo @lustein
foto não autorizada, mas copiada daqui

Fabiano Principal ,

gogó de ema

April 29th, 2010

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ao percorrer as rodovias do pais, não é difícil encontrar trecheiros e andarilhos de estrada caminhando solitariamente pelos acostamentos das rodovias com um saco às costas onde carregam todos os seus pertences. no saco, também conhecido como gogó de ema, normalmente carregam objetos utilitários, como uma troca de roupa, um cobertor para se proteger do frio, uma lona de plástico, para se abrigar da chuva, a cascuda (utensílio para colocar comida que ganham de outrem), a (colher para comer) e a muringa (caneca de plástico para tomar água e álcool)

NOMADISMOS CONTEMPORANEOS: UM ESTUDO SOBRE ERRANTES TRECHEIROS
Euripedes Costa do Nascimento

Fabiano Principal ,

managing the present, selectively abandoning the past, creating the future

April 15th, 2010

Though the Hindu religion recognizes 330 million gods, there are only three main Hindu deities: Vishnu, the god of preservation; Shiva, the god of destruction; and Brahma, the god of creation. The correspondence between the three boxes and the three Hindu gods is clear.

preserving or managing the present: Vishnu

destroying or selectively abandoning the past: Shiva

creating the future: Brahma

According to Hindu philosophy, preservation-destruction-creation is a continuous cycle without a beginning or an end. The three gods play an equally important role in all three phases of that process. Further, Hinduism states that, while changes in the universe can be quite dramatic, the processes leading to changes are often evolutionary and involve smaller steps.

This is just the challenge for large companies: to create their future while managing their present. To take small steps that lead to big change. How good is your organization in managing the preservation-destruction-creation cycle?

trecho do artigo Modern Strategy and Hinduism: Finding Parallels
via @renatalemos

Fabiano Principal ,

A saga dos nômades Citas nas guerras pérsicas

April 14th, 2010

Em As Guerras Pérsicas, Heródoto descreve um povo temido conhecido como os citas, que tinham uma sociedade agrícola-nômade diferente dos impérios sedentários do “berço da civilização”. A terra natal dos citas ao norte do Mar Negro era inóspita tanto climática quanto geograficamente, e resistiu à colonização nem tanto por estas razões naturais, mas principalmente pela inexistência de instrumentos econômicos ou militares por meio dos quais se pudesse colonizá-los ou subjulgá-los. Sem cidades ou territórios fixos, aquela “horda migratória” nunca podia na verdade ser localizada. Consequentemente, nunca podiam ser postos na defensiva e conquistados. Mantinham sua autonomia por meio do movimento, fazendo parecer aos estrangeiros que estavam sempre presentes e a postos para enfrentarem um ataque, mesmo quando ausentes.

O medo inspirado pelos citas era justificado, uma vez que organizavam frequentes ofensivas militares, embora ninguém soubesse exatamente onde, até o momento em que repentinamente apareciam, ou até que indícios de seu poder fossem descobertos. Uma fronteira flutuante era mantida em sua terra natal, mas para eles o poder não era uma questão de ocupação espacial. Eles vagavam, tomando territórios e cobrando tributos na medida em que precisavam, em qualquer região onde se encontrassem. Desse modo, construíram um império invisível que dominou a “Ásia” por vinte e sete anos e que se estendeu até o Egito, ao sul. O império em si não era sustentável, já que sua natureza nômade rejeitava a necessidade ou o valor da posse dos territórios. (Não deixavam guarnições em territórios conquistados).

Os citas ficavam vagando livres, já que seus adversários rapidamente compreenderam que, mesmo quando a vitória parecia provável, por uma questão de praticidade era melhor não combatê-los, mas sim concentrar esforços militares e econômicos em outras sociedades sedentárias - isto é, sociedades onde a infra-estrutura podia ser localizada e destruída. para combater os citas, o inimigo era obrigado a primeiro revelar-lhes a sua posição defensiva. Se os citas não gostassem das condições de combate, sempre tinham a opção de permanecerem invisíveis, impedindo o inimigo de construir um teatro de operações.

Este modelo arcaico de distribuição do poder e estratégia predatória foi reinventado pela elite do poder do capitalismo tardio, com praticamente os mesmos objetivos. Sua reinvenção baseia-se na abertura tecnológica do ciberspaço, onde velocidade/ausência e inércia/presença colidem na hiper-realidade. O modelo arcaico de poder nômade, outrora um meio para formar um império instável, evoluiu para um meio sustentável de dominação. Em um estado de duplo sentido, a sociedade contemporânea de nômades se torna tanto um campo difuso de poder ser localização quanto uma máquina de ver que aparece como espetáculo. A primeira prerrogativa abre caminho ao aparecimento de economia global, enquanto a segunda age como uma guarnição militar em vários territórios, mantendo a ordem da mercadoria cm uma ideologia específica a cada área.

Embora tanto o campo de poder difuso quanto a mquina de ver estejam integrados através da tecnologia, e sejam peças indispensáveis ao império global, foi o campo de poder difuso o que realizou plenamente o mito cita. A passagem de um espaço arcaico para uma rede eletrônica acrescenta um complemento às vantagens do poder nômade: os nômades militarizados sempre estão na ofensiva. A obscenidade do espetáculo e o terror da velocidade são seus companheiros fiéis.

Na maioria dos casos, populações sedentárias se submetem à obscenidade do espetáculo, e alegremente pagam o tributo que lhes é exigido sob a forma de trabalho, bens materiais e lucro. Primeiro Mundo, Terceiro Mundo, nação ou tribo, todos devem pagar tributo. As nações, classes, raças e gẽneros diferenciados e hierárquicos da sociedade sedentária moderna, todos se fundem sob o domínio nômade e passam a ter o papel de prestadores de serviço - zeladores da ciberelite. Esta divisão, mediada pelo espetáculo, oferece táticas que ultrapassam o modelo nômade arcaico. Em vez de uma pilhagem hostil de um adversário, tem lugar uma pilhagem amigável, conduzida de modo sedutor contra o passivo em êxtase. A hostilidade do oprmimido é recanalizada para a burocracia, que desvia o antagonismo para longe do campo de poder nômade.

O refúgio na invisibilidade da não-localização impede que aqueles que foram pegos nos enquadramentos espaciais do panóptico (idealizado pelo inglês Jeremy Benthan no fim do século XVIII, o panóptico era um modelo de prisão cuja arquitetura permitia que os guardas vigiassem os detentos sem serem vistos. Com o tempo, passou a designar qualquer estrutura de controle onde o poder não pode ser identificado) definam o local de resistência *um teatro de operações), ficando pelo contrário, presos por uma fita adesiva aos monumentos do capital morto. (Direito ao aborto? Faça uma manifestação nas escadas da Suprema Corte. Para a liberação de drogas que retardam o desenvolvimento do HIV, invada o NIH (National Institute of Health). A maior vantagem dos nômades reside em não terem mais necessidade de manter uma posição defensiva.

Enquanto os centros de informação eletrônica transbordam com arquivos de pessoas eletrônicas (aquelas transformadas em históricos bancários, tipos de consumidores, padrões e tendências etc), pesquisa eletrônica, dinheiro eletrônico e outras formas de poder de informação, o nômade está livre para vagar pela rede eletrônica e cruzar as fronteiras nacionais com um mínimo de resistência por parte das burocracias nacionais. O domínio privilegiado do espaço eletrônico ccontrola a logística física da produção industrial, visto que a liberação de matérias-primas e de bens manufaturados requer autorização e orientações eleltrônicas. Tal poder deve ser entregue ao ciberdomínio, sob pena da eficiência (e portanto lucratividade) da produção industrial complexa, da distribuição e do consumo entrarem em colapso devido a uma falha na comunicação.

O mesmo vale para as forças armadas: existe um controle das informações e recursos e distribuição pela ciberelite. Sem comando e controle, as forças militares ficam imobilizadas ou, na melhor das hipóteses, ficam limitadas a uma distribuição caótica em um espaço localizado. Dessa maneira, todas as estruturas sedentárias se tornam servas dos nômades.

trecho do livro Distúrbio Eletrônico - Critical Art Ensemble (que troquei na festa do chapéu)

Fabiano Principal ,

a sociedade pós-moralista

April 6th, 2010

À medida que as normas de felicidade se intensificam, a consciência de remorso se torna mais aleatória.

o valor moral do remorso é algo “sem propósito, antes, durante ou após o delito”

O que hoje impera é a fluidez da sensibilidade, e não a sensibilidade tonificada.

O que almejamos agora não é tanto a liberdade. Esta já temos! E sim a máxima qualidade nas relações intimas.

Trechos do livro “A Sociedade Pós-moralista” de Gilles Lipovetsky.

Fabiano Principal