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Posts Tagged ‘nomade’

desconhecer os pontos de ancoragem

August 3rd, 2010

Nomadismo é um conceito estudado por Deleuze e Guattari (pp. 1.995-1997), que o explicitaram no tratado de nomadologia - a máquina de guerra - em Mil Platôs. Os autores apontam para três características do movimento nômade no espaço geográfico.

a. os pontos e caminhos de uma rede nômade;

b. o espaço aritmético;

c. o nomadismo da afetividade.

Na rede nômade, que é de nosso interesse aqui, sem desconhecer os pontos de ancoragem, o nômade prefere o movimento dos caminhos entre os pontos. São os caminhos que importam, pois a vida nômade pressupõe estar sempre no meio do caminho. Os espaços nômades são lisos, pois os caminhos também são móveis, apagam-se e deslocam-se na tragetória sem pouso.

São também caminhos construídos à medida que se caminha (”não há caminhos, há que caminhar”). Junto com os conceitos de rizoma, dobra, corpo sem órgãos, o conceito deleuziano de nomadismo é admirávelmente antecipatório. Nas redes do ciberespaço não só os caminhos são móveis, como também os nós. Enquanto nas conexões ancoradas, os computadores e telefones ocupam lugares fixos, nas conexões móveis e contínuas os telefones representam pontos de conexão móveis, mobilidade que lhes é dada pelo usuário que circula pelos espaços físicos. Duplo nomadismo e dupla mobilidade, portanto.

O que alimenta as ambiguidades vigentes é o fato de que, no duplo nomadismo e na dupla mobilidade, as bordas entre os estados de presença e ausência que, nas socieaddes tradicionais, eram nítidas se tornam borradas. Presença e ausência intercambiam-se, sobrepõem-se em um mesmo espaço, gerando a vivência da ubiquidade: estar lá, de onde me chamam, e estar aqui, onde sou chamado, ao mesmo tempo.

p235

Linguagens Líquidas na era da mobilidade
Lúcia Santaella

Fabiano Principal

razão nômade

August 3rd, 2010

para ler.. dica da @viviamaral

Fabiano Principal

A saga dos nômades Citas nas guerras pérsicas

April 14th, 2010

Em As Guerras Pérsicas, Heródoto descreve um povo temido conhecido como os citas, que tinham uma sociedade agrícola-nômade diferente dos impérios sedentários do “berço da civilização”. A terra natal dos citas ao norte do Mar Negro era inóspita tanto climática quanto geograficamente, e resistiu à colonização nem tanto por estas razões naturais, mas principalmente pela inexistência de instrumentos econômicos ou militares por meio dos quais se pudesse colonizá-los ou subjulgá-los. Sem cidades ou territórios fixos, aquela “horda migratória” nunca podia na verdade ser localizada. Consequentemente, nunca podiam ser postos na defensiva e conquistados. Mantinham sua autonomia por meio do movimento, fazendo parecer aos estrangeiros que estavam sempre presentes e a postos para enfrentarem um ataque, mesmo quando ausentes.

O medo inspirado pelos citas era justificado, uma vez que organizavam frequentes ofensivas militares, embora ninguém soubesse exatamente onde, até o momento em que repentinamente apareciam, ou até que indícios de seu poder fossem descobertos. Uma fronteira flutuante era mantida em sua terra natal, mas para eles o poder não era uma questão de ocupação espacial. Eles vagavam, tomando territórios e cobrando tributos na medida em que precisavam, em qualquer região onde se encontrassem. Desse modo, construíram um império invisível que dominou a “Ásia” por vinte e sete anos e que se estendeu até o Egito, ao sul. O império em si não era sustentável, já que sua natureza nômade rejeitava a necessidade ou o valor da posse dos territórios. (Não deixavam guarnições em territórios conquistados).

Os citas ficavam vagando livres, já que seus adversários rapidamente compreenderam que, mesmo quando a vitória parecia provável, por uma questão de praticidade era melhor não combatê-los, mas sim concentrar esforços militares e econômicos em outras sociedades sedentárias - isto é, sociedades onde a infra-estrutura podia ser localizada e destruída. para combater os citas, o inimigo era obrigado a primeiro revelar-lhes a sua posição defensiva. Se os citas não gostassem das condições de combate, sempre tinham a opção de permanecerem invisíveis, impedindo o inimigo de construir um teatro de operações.

Este modelo arcaico de distribuição do poder e estratégia predatória foi reinventado pela elite do poder do capitalismo tardio, com praticamente os mesmos objetivos. Sua reinvenção baseia-se na abertura tecnológica do ciberspaço, onde velocidade/ausência e inércia/presença colidem na hiper-realidade. O modelo arcaico de poder nômade, outrora um meio para formar um império instável, evoluiu para um meio sustentável de dominação. Em um estado de duplo sentido, a sociedade contemporânea de nômades se torna tanto um campo difuso de poder ser localização quanto uma máquina de ver que aparece como espetáculo. A primeira prerrogativa abre caminho ao aparecimento de economia global, enquanto a segunda age como uma guarnição militar em vários territórios, mantendo a ordem da mercadoria cm uma ideologia específica a cada área.

Embora tanto o campo de poder difuso quanto a mquina de ver estejam integrados através da tecnologia, e sejam peças indispensáveis ao império global, foi o campo de poder difuso o que realizou plenamente o mito cita. A passagem de um espaço arcaico para uma rede eletrônica acrescenta um complemento às vantagens do poder nômade: os nômades militarizados sempre estão na ofensiva. A obscenidade do espetáculo e o terror da velocidade são seus companheiros fiéis.

Na maioria dos casos, populações sedentárias se submetem à obscenidade do espetáculo, e alegremente pagam o tributo que lhes é exigido sob a forma de trabalho, bens materiais e lucro. Primeiro Mundo, Terceiro Mundo, nação ou tribo, todos devem pagar tributo. As nações, classes, raças e gẽneros diferenciados e hierárquicos da sociedade sedentária moderna, todos se fundem sob o domínio nômade e passam a ter o papel de prestadores de serviço - zeladores da ciberelite. Esta divisão, mediada pelo espetáculo, oferece táticas que ultrapassam o modelo nômade arcaico. Em vez de uma pilhagem hostil de um adversário, tem lugar uma pilhagem amigável, conduzida de modo sedutor contra o passivo em êxtase. A hostilidade do oprmimido é recanalizada para a burocracia, que desvia o antagonismo para longe do campo de poder nômade.

O refúgio na invisibilidade da não-localização impede que aqueles que foram pegos nos enquadramentos espaciais do panóptico (idealizado pelo inglês Jeremy Benthan no fim do século XVIII, o panóptico era um modelo de prisão cuja arquitetura permitia que os guardas vigiassem os detentos sem serem vistos. Com o tempo, passou a designar qualquer estrutura de controle onde o poder não pode ser identificado) definam o local de resistência *um teatro de operações), ficando pelo contrário, presos por uma fita adesiva aos monumentos do capital morto. (Direito ao aborto? Faça uma manifestação nas escadas da Suprema Corte. Para a liberação de drogas que retardam o desenvolvimento do HIV, invada o NIH (National Institute of Health). A maior vantagem dos nômades reside em não terem mais necessidade de manter uma posição defensiva.

Enquanto os centros de informação eletrônica transbordam com arquivos de pessoas eletrônicas (aquelas transformadas em históricos bancários, tipos de consumidores, padrões e tendências etc), pesquisa eletrônica, dinheiro eletrônico e outras formas de poder de informação, o nômade está livre para vagar pela rede eletrônica e cruzar as fronteiras nacionais com um mínimo de resistência por parte das burocracias nacionais. O domínio privilegiado do espaço eletrônico ccontrola a logística física da produção industrial, visto que a liberação de matérias-primas e de bens manufaturados requer autorização e orientações eleltrônicas. Tal poder deve ser entregue ao ciberdomínio, sob pena da eficiência (e portanto lucratividade) da produção industrial complexa, da distribuição e do consumo entrarem em colapso devido a uma falha na comunicação.

O mesmo vale para as forças armadas: existe um controle das informações e recursos e distribuição pela ciberelite. Sem comando e controle, as forças militares ficam imobilizadas ou, na melhor das hipóteses, ficam limitadas a uma distribuição caótica em um espaço localizado. Dessa maneira, todas as estruturas sedentárias se tornam servas dos nômades.

trecho do livro Distúrbio Eletrônico - Critical Art Ensemble (que troquei na festa do chapéu)

Fabiano Principal ,

Unity

February 1st, 2010

The unity of the tribe ensures the consistency of the nomads’ trajectory. The tribe is a moving standpoint. Linking together the multiple realities of the present, the tribe prevents the total fragmentation of nomadic identity.

Unity is necessary to the coherence of the tribe but paradoxically imperils nomadic life. Nomads will run away from any force that tries to embody them in a single, monolithic, unified reality.

Any transport that accelerates the speed at which the rhizome expands also reduces its connections to the multiple. Speed projects objects forward in a direction and simultaneously alien it from all others. Nomads strengthen their unity by integrating the multidimensional.

http://www.nomadology.com

Fabiano Principal

Sharing

January 31st, 2010

Nomads’ lifestyle rely on collective ownership. The unit is the tribe, not the individual. The more heterogeneous the tribe the strongest it is because each members benefits from the talents of the others.

Sharing is not limited to material good or services. Sharing of knowledge and values insures the survival of the tribe’s identity. Communities sharing information, knowledge and goods seem to re-emerge in postmodern societies.

For instance, electronic music producers sample existing beats to produce new sounds. In return their music is re-use and re-mixed, increasing the notoriety of the sound and the collective capital of music producers.

http://www.nomadology.com

Fabiano Principal

Adaptation

January 31st, 2010

Nomads have a fluid identity allowing them to adapt constantly to changing situations. Their identity is strengthened by the changes they go through.

Nomads do not try to dominate their environment. Their strategy is rather one of adaptation. Nomads are not exterior to their environment, they are part of it.

There are however situations to which nomads refuse to adapt. Where their identity and freedom are in danger they are ready to fight.

http://www.nomadology.com/

Fabiano Principal

Bem-vindo ao novo estilo de vida nômade

January 22nd, 2010

O prezado leitor talvez não o tenha reparado. Que o mundo está mudando profundamente, é óbvio. Mas em quê? Segundo a revista The Economist, estamos voltando a ser nômades.

A chave, aqui, é mobilidade. A maior característica de nossas novas traquitanas eletrônicas é sua portabilidade. Câmeras, iPods, celulares, notebooks, palms. Parte do que faz os novos aparelhos mais portáteis é a crescente miniaturização dos componentes. De nada valeria se a rede não estivesse indo para o ar, sem a necessidade de fios. É um mundo wireless.

Há um motivo que faz nossos locais de trabalho serem como são. Há uma mesa, arquivos, estantes, tomadas várias. Como um mínimo de privacidade traz o silêncio necessário para um tanto de concentração, alguém inventou os cubículos, imortalizados por Scott Adams em sua série de tiras com o personagem Dilbert. Para sermos localizados, é também preciso que estejamos à frente do número telefônico que nos cabe. A revolução industrial nos criou um mundo dividido em cubos nos quais vamos nos ajeitando enquanto produzimos como loucos, enquanto produzimos em série. O tempo do lazer, por sua vez, era aquele em que passávamos fora do escritório. Tudo devidamente compartimentado.

Esses motivos todos, no entanto, estão desaparecendo – e muito rápido. Aquele mundo tão concreto de 1990 em que não havia celulares, computadores portáteis eram coisa de executivos endinheirados e internet só uma meia dúzia de geeks conhecia se foi. A era industrial já acabou. O que falta é definir como funciona o tempo corrente.

O arquivo de dados e o conteúdo dos livros que precisamos consultar está na rede – pode ser uma rede local ou aquela outra, global. Ainda precisamos de tomadas, mas isso não é sempre. Nossas baterias agüentam o tranco por um bom tempo. Nosso número telefônico, evidentemente, está conosco não importa onde estejamos. E uma das características dessas nossas novas ferramentas é que elas servem ao trabalho e ao lazer. O telefone toca música e tira fotos. O computador serve para jogos ou para uma conversa em vídeo com aquela tia que mora em Santa Rita, muito longe – enquanto serve para a planilha, para o relatório.

Fundamentalmente, podemos trabalhar em qualquer lugar. No inverno do Hemisfério Norte, é bom que seja entre quatro paredes. Em dias de chuva, também. Mas num dia agradável de verão, desde que protegidos por uma sombra generosa, nada melhor do que trabalhar ao ar livre. Podemos trabalhar enquanto tomamos um café. E, se às vezes empacamos numa questão, é bom dar um tempo, conversar com um amigo, jogar um jogo ou algo assim, até que o estalo nos venha e possamos retomar o trabalho.

A Economist cita dois ambientes de trabalho cujas arquiteturas prevêem esse novo trabalhador. Um é o Centro Stata do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), desenhado pelo mestre Frank Gehry. Sua fachada têm ângulos inusitados, foge aos cubos. E, lá dentro, todos os ambientes onde convivem professores e estudantes de filosofia e ciência da computação podem ser um lugar de paquera, de estudo, de aula ou a cafeteria. Não há salas com uso específico e todo corredor é um pouco sala também. Os ambientes servem ao propósito que os usuários desejarem no momento.

O outro lugar é o câmpus do Google. Nesse mundo, a empresa não tem conjunto de prédios. Tem câmpus. Além dos ambientes internos à moda do MIT, também há um jardim e quadras de esporte. A rede Wi-Fi é plena até nos ônibus que levam os funcionários das cidades vizinhas à sede.

Até no ônibus o trabalho é possível, pois é. E, no entanto, a vida em família é também constante. A conversa com sua mulher a respeito da escola da filha vai sendo tocada ao longo do dia. O tempo do trabalho, do lazer, dos amigos e da família é o tempo todo. O lugar é também qualquer lugar nessa era em que tornamos a ser nômades.

clipping do Estadão
segunda-feira, 5 de maio de 2008
porPedro Doria
*pedro.doria@grupoestado.com.br

Fabiano Principal

Bem-vindo ao novo estilo de vida nômade

January 22nd, 2010

Clipping do Estadão

Com acesso à tecnologia, cada vez mais pessoas rompem com a rotina casa-emprego e vivem e trabalham de qualquer lugar

porFilipe Pacheco e Lucas Pretti, O Estado de S. Paulo

Até pouco tempo atrás, o café da Pinacoteca do Estado, com vista para o luxuriante Parque da Luz, em São Paulo, era o cenário ideal para passear, beber ou comer algo e descansar entre uma obra de arte e outra. Isso antes de ser ocupado por pessoas como a garota da foto ao lado. Sem ninguém perceber, ela transformou a Cafeteria em escritório, sala, biblioteca, loja de música, faculdade…

Soa estranho, mas a motivação da estudante de arquitetura Rita Wu, de 22 anos, é a mesma de um homem pré-histórico. Como há 6 mil anos, ela carrega ferramentas pessoais (laptop, celular, iPod) para garantir sua sobrevivência em qualquer lugar, sem criar raízes. Pessoas como Rita ganharam terminologia própria: nômades, a vanguarda digital que pode alterar para sempre a vida em sociedade.

Leia também:
Estamos de volta à era dos nômades
Rumo ao nomadismo
A bagagem nômade: laptop, celular e HD
Revolução nômade já altera relações
Link avalia locais ligados à nova tendência
Nômades por um mundo melhor
Mobilidade rompe muro de grandes empresas e já influencia negócios
Conexão com a rede é essencial
A sociedade está pronta para receber a nova tribo?

Blog do Link • Responda a uma pesquisa sobre o estilo de vida nômade

O termo foi cunhado em abril pela revista britânica The Economist, umas das mais respeitadas do mundo. O conceito por trás desse novo nomadismo é o avanço da tecnologia em direção à mobilidade, que permite estarmos em qualquer lugar a partir de qualquer lugar. É justamente como vive Rita Wu.

Ela sai da faculdade e, quando precisa entregar projetos encomendados por escritórios de engenharia, vai ao museu “para se inspirar”. Chega ao jardim, conecta-se à internet sem fio e tem todas as pessoas de que precisa a um clique de distância. Também estão ao alcance seus outros trabalhos e a vastidão da web. Rita trabalha, conversa, estuda. Com o luxo de fazer tudo isso com as pernas literalmente para o ar, ouvindo os passarinhos.

Rita não é a única e muito menos exceção. Ainda não há levantamentos precisos sobre quantos são os novos nômades, mas estatísticas apontam crescimento exponencial de equipamentos móveis. No Brasil, de janeiro a março foram vendidos 644 mil notebooks, índice 165% superior ao do mesmo período de 2007, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).

A consultoria de telecomunicações Teleco estima que o País deve terminar 2008 com uma base de 146 milhões de celulares em operação – quase um por pessoa –, 21% a mais do que no ano passado. Os números mostram realmente que a mobilidade é uma tendência irreversível do século 21.

Esta edição do Link apresenta o nomadismo digital e mostra exemplos do novo estilo de vida propiciado pela conectividade full-time. Se quiser fazer parte do clube, também ensinamos a se equipar como um nômade e avaliamos onde se conectar pelas ruas de São Paulo. E, claro, mostramos mais pessoas como Rita.

Fabiano Principal , ,

((( TAZ )))

November 21st, 2009

osh-c03celebration
A famlia nuclear, com suas consequentes “dores edipianas”, parece ter sido uma invenção neolítica, uma resposta à “revolução agrícola” com sua escassez e hierarquia impostas. O modelo paleolítico é mais primário e mais radical: o bando. O típico bando nômade ou semi-nômade de caçadores/coletores é formado por cerca de cinquenta pessoas. Em sociedades tribais mais populosas, a estrutura de bando é mantida por clãs dentro da tribo, ou por confrarias como sociedades secretas ou iniciáticas, sociedades de caça ou de guerra, associações de gênero, as “repúblicas de crianças” e por aí adiante. Se a família nuclear é gerada pela escassez (e resulta em avareza), o bando é gerado pela abundância (e produz prodigalidade). A família é fechada, geneticamente, pela posse masculina sobre as mulheres e crianças, pela totalidade hierárquica da sociedade
agrícola/industrial. Por outro lado, o bando é aberto - não para todos, é claro, mas para um grupo que divide afinidades, os iniciados que juram sobre um laço de amor. O bando não pertence a uma hierarquia maior, ele é parte de um padrão horizontalizado de costumes, parentescos, contratos e alianças, afinidades espirituais etc.

Muitas forças estão trabalhando - de forma invisível - para dissolver a família nuclear e resgatar o bando em nossa própria sociedade da Simulação pós-Espetacular. Rupturas na estrutura do trabalho refletem a “estabilidade” estilhaçada da unidade-lar e da unidade-família. Hoje em dia, o “bando” de alguém inclui amigos, ex-esposos e amantes, pessoas conhecidas em diferentes empregos e encontros, grupos de afinidade, redes de pessoas com interesses específicos, listas de discussão etc. Cada vez mais fica evidente que a família nuclear se torna uma armadilha, um ralo cultural, uma secreta implosão neurótica de átomos rompidos. E a contra-estratégia óbvia emerge de forma espontânea na quase inconsciente redescoberta da possibilidade - mais arcaica e, no entanto, mais pós-industrial - do bando.festival.


Zona Autônoma Temporia - Hakim Bey

Fabiano Principal ,

a aventura do cotidiano..

September 30th, 2009

O errante pode ser solitário, mas não é isolado e isto porque participa, realmente, imaginaria ou virtualmente, de uma comunidade vasta e informal que, não tendo obrigatoriamente duração longa, nem por isto é menos sólida, pelo fato de ultrapassar os indivíduos particulares e unir a essência de um ser conjunto fundado sobre os mitos, os arquétipos.

A liberdade de tom e de postura segregada pelo ambiente libertário do momento não é de modo algum índice de uma ideologia individualista ou de qualquer narcisismo efêmero. É, na verdade, importante estar atento ao fato de que aquilo que está em questão aqui é menos um “eu” empírico, o do ego da tradição ocidental em geral e do cartesianismo em particular, e mais certamente, por contágio, aquilo que o budismo chama de o “eu original”. Os diversos sincretismos religiosos ou filosóficos testemunham isso, as práticas da New Age o mostram à vontade, as pesquisas espirituais-corporais disso dão fé, estamos certamente diante de uma orientalização do mundo. Eis o fruto do nomadismo contemporâneo: ele pediu emprestado a diversas civilizações elementos que o racionalismo triunfante tinha ou ocultado ou marginalizado, e disso faz o centro da sociabilidade contemporânea.

Assim a liberdade do errante não é a do indivíduo, ecônomo de si e ecônomo do mundo, mas exatamente a da pessoa que busca um modo místico “a experiência do ser“. Essa experiência, e é por isso que se pode falar de mística, é antes de tudo comunitária. Precisa, sempre, da ajuda do outro. O outro pode ser aquele da pequena tribo à qual se aderiu, ou o grande Outro da natureza, ou de tal ou qual divindade. O dinamismo e a espontaneidade do nomadismo estão justamente em desprezar fronteiras (nacionais, civilizacionais, ideológicas, regiliosas) e viver concretamente alguma coisa de universal.

Citas do livro Sobre o nomadismo – vagabundagens pós-modernas. (Michel Maffesoli – Ed. Record)

Fabiano Principal