
Saí da rua central de Vinhedo para a zona rural de Sumaré. Despenquei da montanha para o vale. Sim, a estância distante onde Deus me conduziu é um vale.
Deus me isolou da rotina onde eu encontrava tantas pessoas diariamente para me encontrar secretamente.
Achei que ia enlouquecer na inutilidade da minha própria vida quase que esquecida completamente até entender, em uma manhã de sol… itude, tomando café, lendo alguns livros da Madame Guyon adquiridos em um sebo, que um vaso útil não é o que está sendo utilizado, mas aquele que está disponível.
Os excessos nos tornam indisponíveis.
Essas palavras foram derramadas como bálsamo precioso que curou todo meu interior e aquietou a minha alma acostumada a ser útil e necessária – a ser lembrada pelo que eu fazia, pelo espaço que ocupava e tudo que isso representava. De repente, já não era.
A vida religiosa que me matou por muitos anos me tornando dependente dessa droga que é “fazer a obra” me rendeu crise de abstinência e existência.
Bem-vinda à sua generosa solidão, Karina. À sua escassez, à sua falta, à sua pequena vida sem grandes pretensões, minimalista e pouco, ou quase nada, aprazível. Sem títulos, sem escalas, sem motivo.
O que era importante deixou de ser.
Saudade às vezes, solidão sempre, sensação de vazio – de certa maneira, necessário para absorção plena de um novo conteúdo.
Romper meus conceitos, resolver meus preconceitos e me apresentar a mim mesma como um fracasso do formato que me deformou fazia parte desse tempo comigo na perspectiva dEle.
De repente um medo, quase sempre uma angústia e para sempre a minha gratidão.
O vale é sempre um lugar que queremos evitar mas ele não nos evita – ele mira em nós em uma rima de nós e pode ser o momento mais rico da nossa história: empobrecer de nós mesmos. Os espaços vazios são como sulcos na terra para sementes que carregam a promessa de uma futura colheita. Nossas lágrimas fazem parte da preparação da terra. /Sl 126
De malas prontas para um novo destino, tenho nesse próximo passo a experiência do vale que vale tudo pelo seu valor inegociável. Obrigada Jesus por me ensinar a te invocar para dar forma e preencher o vazio dos meus dias. Teu haja luz me faz enxergar os ciclos que terminam e os que começam numa tarde e numa manhã de um primeiro dia rumo ao pico da montanha.
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Estância Árvore da Vida
Rua Davi, 6.
Aqui Meu Filho primogênito Davi venceu a morte do primeiro Adão criado ao sexto dia que se corrompeu alimentando-se de outra árvore, mas escolhemos a vida do último Adão sob a cruz que prevalece sobre a divisão, enfermidade e rejeição.
Gratidão & solidão.
Abração, Karina.